De Volta ao Básico

Esse texto compõe uma série de ensaios sobre a criação das Organizações Prósperas e do PROSPER e a PROSPERA, o projeto mais inovador e inclusivo que já participei. Esses ensaios em servem de exercício para a publicação de um livro sobre essa caminhada.

image.png

Durante a construção da PROSPERA e a criação do PROSPER, no meio de muito trabalho, intuição, interação e prototipação, sempre houve, entre o Oswaldo e eu, o entendimento de que existiria um arcabouço teórico que deveria ser acessado em determinado momento para, primeiro, dar um formato mais formal aos princípios das Organizações Prósperas, permitindo vôos mais altos e a escalabilidade do projeto, que ainda requeria muito esforço de capacitação para entrar em velocidade de cruzeiro.

Em outubro de 2017, três meses depois da criação do ambiente da PROSPERA e da distribuição da PCD, enfrentávamos críticas sobre concentração de tokens, um mercado de especulação e a ansiedade em monetizar o PROSPER tomavam dimensões que comprometiam o entendimento da dinâmica exponencial de uma organização distribuída.

A centralização destas atividades no Oswaldo, exigindo diversas ações de construção de conteúdos explicativos, evidenciavam a necessidade de uma fundamentação teórica mais robusta e de uma estruturação mais intuitiva, que permitisse o entendimento do funcionamento da PROSPERA nas interações entre os Nós, e dos Nós com o ambiente e com os objetos criados.

Aqui abro um parênteses para um Mea Culpa, as atividades do Blockchain Research Institute estavam tomando meu tempo, e não fui capaz de prototipar um modelo que endereçasse os incômodos que sentia na organização da PROSPERA e pudesse desenvolver o entendimento para saná-los.

Hoje, dois anos depois, partindo da organização do BRI Brasil a partir do modelo de Commons que prototipei na LABORIOSA 89 com o projeto COP 21 em Rede, encontrei nos livros de Elinor Ostrom e David Bollier, os fundamentos que faltavam para fechar o entendimento dos processos que precisam ser inseridos na PROSPERA, da parceria com a PERCOLAB de Montreal e a tradução do livro GOING HORIZONTAL vieram as práticas de atuação de forma horizontal e distribuída que faltavam nos processos por demais individualizados da PROSPERA. Foi uma longa caminhada, não para transformar a PROSPERA em algo diferente de sua intenção inicial, mas para entender o que deveria ser feito para que ela cumprisse os objetivos iniciais.

O entendimento fundamental veio da Teoria dos Commons, que não chamarei de Bem Comum por ter uma conotação de ativo, de recurso a ser utilizado, mas para evidenciar que a PROSPERA é baseada num movimento social, que une o uso de ativos de uso compartilhado aliados a uma forte ação social, autônoma, distribuída e colaborativa.

Aliada à prática do BRI Brasil e aos desdobramentos de nossas atividades, a teoria dos Commons confirmou o caminho dos Princípios da Organização Próspera e, mais importante, mostrou que a PROSPERA estava tomando um caminho Top-Down, e não emergindo como seria o natural de um movimento como este.

O Oswaldo e eu nunca nos consideramos infalíveis, foram inúmeras vezes que tivemos de retroceder em processos ao perceber que centralizávamos sua execução e decisões . Vários passos para trás foram dados para que muitos mais para frente viessem. O viés top-down era absolutamente normal uma vez que estavámos preocupados na formação da comunidade para ser inclusiva e permitir todo tipo de experimentação do que no processo de criação da experiência e no relacionamento entre elas. Tenho certeza que o Oswaldo tinha isso resolvido na cabeça e já contava com tudo funcionando e via sua frustração ao perceber que os Nós não se desenvolviam como idealizado.

De novo fica o Mea Culpa por, diferente de todas as outras vezes, não ter me dedicado na criação dos processos de meus objetos e experimentado algumas suspeitas a tempo para resolver o impasse. Somente após a morte do Oswi, sem o parceiro de décadas, consegui criar a base fundamental para a construção de um processo distribuído dentro da visão do Commons, para prototipar o que hoje podemos chamar de uma Organização Autônoma Distribuída (DAO).

É fácil, mais de dois anos depois, fazer um diagnóstico desses, mas em outubro de 2017, tudo era uma mistura de instinto, intuição, idealismo, fé e muito suor e lágrimas. Perceber a centralização e o estilo top-down me custou bons 18 meses, só entender os processos e encontrar pessoas dispostas a testá-los, uns 14, sendo mais de 10 meses de idas e vindas, que criaram objetos que deram certo, outros que deram errado e consumiram horas de discussões teóricas, filosóficas e operacionais.

Hoje está claro que a PROSPERA é um conjunto de Commons, alguns de conhecimento, outros de meios de produção, outros de recursos naturais que se formam como pequenas DAOs que vão, juntas ou isoladas, oferecer Objetos (produtos ou serviços), produzidos por seus Nós. Em cima desse entendimento pretendo editar os Princípios da Organização Próspera incorporando as referências teóricas faltantes e os aprendizados incorporados, sem mudar um único milimetro as regras adamânticas que eles estabelecem.

Espero que isso reacenda o debate e com o tempo permita que a criação de objetos e Commons torne-se mais intuitiva e automática.

Nota: Este texto é parte do registro da criação da PROSPERA, a primeira DAO de verdade do mundo, sua reprodução está restrita pela licença CREATIVE COMMONS de Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND, Esta decisão, é temporária até que o trabalho esteja concluído, por motivos a serem descrito em texto a ser publicado