A face corporativa das moedas virtuais

Banco de Tokyo Mitsubishi, Facebook, Telegram e Kodak. Essas são só algumas empresas que vão lançar suas próprias criptomoedas. E isso é apenas o começo

Criada há quase dez anos, a Bitcoin sempre foi vista como uma ameaça ao sistema financeiro. Seus recursos tecnológicos lhe permitem intermediar transações financeiras de forma mais rápida e barata que os prestadores tradicionais desses serviços. Por isso, a moeda virtual sempre foi considerada um substituto potencial dos bancos e das empresas de cartão de crédito e de remessas internacionais de recursos. O sistema financeiro, porém, não está parado. Na semana passada, o Banco de Tokyo Mitsubishi anunciou que deverá lançar sua própria moeda virtual em março. E essa não será a única inovação. A instituição, maior banco do Japão e quinto maior do mundo, com ativos de US$ 2,59 trilhões, também vai lançar uma bolsa para negociar essas moedas antes do fim do ano.

A iniciativa vai ao encontro de uma política governamental japonesa. Além de legalizar as moedas virtuais em 2017, o governo do primeiro ministro Shinzo Abe pretende que, na abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, as moedas virtuais tenham uma circulação tão ampla quanto o iene. Outro banco de varejo, o Mizuho, está liderando um consórcio para criar outra moeda, já denominada J-Coin. Alguns estabelecimentos comerciais japoneses já aceitam bitcoins e, nos principais centros financeiros, há caixas automáticos nos quais o cliente pode operar com a moeda virtual, convertendo-a para outras moedas. Mesmo assim, seu uso ainda é restrito.

A decisão do Tokyo Mitsubishi vai mudar isso, pois representa a primeira iniciativa para massificar o uso de uma criptomoeda. A princípio, a nova moeda será distribuída a alguns dos 110 mil funcionários do banco e poderá ser usada em transações internas. A intenção é que, ao longo do tempo, o J-Coin e a moeda do Tokyo Mitsubishi convivam com o iene e com o dólar, em transações realizadas em bolsas como a que será lançada pelo banco. O anúncio segue-se a outras iniciativas que vêm movimentando o mercado das criptomoedas. Antes restritas a grupos de aficionados por tecnologia, as moedas virtuais vêm sendo adotadas por empresas.

Alguns casos são óbvios, como o do Facebook e do aplicativo de mensagens Telegram. No início deste ano, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, declarou seu apoio à novidade. “Encriptação e criptomoedas são ferramentas importantes para impedir a proliferação dos discursos de ódio e da desinformação, que afetaram as redes sociais nos últimos tempos”, escreveu ele. “Isso vai retirar poder dos sistemas centralizados e vai colocá-lo de volta nas mãos das pessoas.” A nova moeda, já apelidada de FBCoin, pode ser lançada neste ano. No fim de 2017, David Marcus, vice-presidente do Facebook responsável pelos serviços de mensagens da rede social, passou a integrar o conselho de administração da Coinbase, uma das maiores bolsas americanas de criptomoedas. “Sou fascinado com essas moedas desde 2012, e sempre admirei como elas permitiram a descentralização do poder”, escreveu Marcus no blog da Coinbase.

O potencial da moeda virtual do Facebook é imenso. No limite, poderá intermediar, quase sem custo, as transações entre os cerca de dois bilhões de usuários da rede social. Já o Telegram não esconde sua intenção de transformar seu sistema de mensagens em um sistema de pagamentos. Na primeira semana de janeiro, a empresa anunciou a intenção de captar US$ 500 milhões com uma Initial Coin Offering (ICO), ou emissão de moedas, processo parecido com o de uma abertura de capital. A ideia agradou: na tarde da quinta-feira 25, as encomendas para as criptomoedas somavam US$ 1,2 bilhão. Denominada Gram, a intenção é que a moeda sirva aos 170 milhões de clientes do serviço para trocar valores, além de mensagens.

Os investidores gostam desses movimentos. Há poucas semanas, a Kodak anunciou o lançamento da KodakCoin, uma criptomoeda para facilitar a negociação de direitos de imagem entre fotógrafos e editores, um negócio hoje nas mãos de agências. Ao divulgar a notícia a centenária empresa viu suas ações triplicarem de valor, subindo de US$ 3,13 para US$ 10,70 em três dias. As cotações recuaram um pouco, para US$ 9,68 na quinta-feira 25, mas ainda estão muito acima do patamar anterior.

Os exemplos devem se multiplicar. Segundo Carl Amorim, presidente da seção brasileira do Blockchain Research Institute, a tecnologia do blockchain, usada para estruturar as criptomoedas, deve abrir cada vez mais oportunidades desse tipo. “A tecnologia já está aí há quase dez anos, mas só agora os empresários começam a despertar para essas possibilidades”, diz ele. “O potencial de ganho de eficiência, por meio da redução de custos e de tempo nas transações será cada vez mais relevante.”

Originalmente publicada em Istoé Dinheiro – 31/01/2018

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